Qualidade de Fitoterápicos em Associações de Pacientes

A despeito das falsas impressões sobre fitoterápicos, essa abordagem exige metrologia rigorosa, ou seja, nada que se faça em “caldeirão de bruxa”. ...

Apesar de o termo “fitoterápico” remeter à ideia de produção caseira ou artesanal, associações de pacientes como a Acuracan vêm consolidando processos laboratoriais de qualidade, assegurando que remédios fitoterápicos de Cannabis sejam produzidos com rigor científico, assepsia e profissionais habilitados.  Neste artigo, apresentamos a Acuracan como modelo de excelência, mas também destacamos como esse padrão se estende a todo o movimento associativo, capaz de transformar o tratamento canábico no Brasil.

Sumário

1. Fitoterápicos: Definição e Contextualização
2. Estrutura Laboratorial e Boas Práticas
3. Controle de Qualidade em Laboratórios de Associações
4. Personalização vs. Padronização
5. Desafios Regulatórios e Caminhos para Melhoria
6. Considerações Finais
7. Mais informações e contato
8. Referências

1. Fitoterápicos: Definição e Contextualização

O termo fitoterápico refere-se a remédios preparados a partir de extratos vegetais, mantendo o conjunto natural de compostos ativos da planta (canabinoides, terpenos e flavonoides), o chamado “efeito entourage”, diferente dos fitofármacos que isolam moléculas específicas para então reconstruir formulações padronizadas.

Os remédios de Espectro Completo são extratos integrais que conservam a sinergia dos compostos, potencializando a eficácia terapêutica e reduzindo efeitos colaterais. A despeito das falsas impressões, essa abordagem exige metrologia fina nas dosagens e processos complexos de descarboxilação, padronização e filtragem, ou seja, nada que se faça em “caldeirão de bruxa”.

2. Estrutura Laboratorial e Boas Práticas

Ambientes Setorizados

Desde sua fundação em 2019, a Acuracan estabeleceu um laboratório central onde desenvolve formulações de fitoterápicos seguindo protocolos de qualidade. Hoje, o laboratório da Associação Acuracan conta com mesas inox, autoclaves, equipamentos de destilação, e profissionais capacitados para o trabalho, aspectos que garantem a segurança e a qualidade dos remédios. Além disso, vale ressaltar as novas instalações do laboratório da Acuracan que já está em construção, valendo das especificações técnicas necessárias de layout: distinguindo áreas limpas (manipulação, envase) e áreas “sujas” (estoque de insumos, logística), com acessos separados. 

De um modo geral, essa adequação laboratorial é indispensável para que associações (que prezam pela qualidade dos produtos fornecidos aos pacientes associados) se estabeleçam como entidades comprometidas com o tratamento canábico sério e efetivo.

3. Controle de Qualidade em Laboratórios de Associações

3.1 Matérias‑primas e Laudos Analíticos

Dado o exemplo da Acuracan, ao receber extratos importados, o laboratório exige laudos físico-químicos e microbiológicos de origem. Em seguida, envia amostras a laboratórios credenciados nacionalmente para revalidação do teor e segurança dos compostos, garantindo confiabilidade na formulação final.

3.2 Padronização de Lotes

A partir dos resultados de cromatografia (HPLC), cada lote de extrato é ajustado para uma matriz estabilizada (ex.: 100 mg/mL de CBD, THC, ou CBG). Essa matriz serve de base para dosagens diversas, facilitando envases precisos e reprodutíveis a partir de cálculos farmacotécnicos validados.

3.3 Filtragem e Pureza

Coágulos de ceras e pigmentos são removidos antes da manipulação final, assegurando aparência límpida e ausência de partículas indesejadas. Esse passo (muitas vezes esquecido na visão popular) reforça o caráter técnico e laboratorial do processo.

3.4 Testes de Metais Pesados e Microrganismos

Controle de resíduos de solventes, metais pesados e presença de microrganismos patogênicos faz parte do escopo de Boas Práticas de Fabricação (BPF), conforme RDC 327/2019 da Anvisa.

4. Personalização vs. Padronização: Equilíbrio Essencial

A Acuracan oferece protocolos de manipulação que equilibram personalização clínica (ajuste de formulações ao perfil de cada paciente) e padronização de formulas com concentrações específicas, assegurando:

  1. Escalabilidade produtiva — Para contemplar a grande parcela dos atendimentos, o laboratório mantém matrizes mais frequentes para os remédios que têm mais saída, o que libera tempo para inovação e P&D (Pesquisa e Desenvolvimento).
  2. Flexibilidade terapêutica — para condições que exigem formulações, concentrações muito específicas ou para aqueles pacientes que apresentam alergias a veículos (MCT, óleo de coco, etc).

Essa dualidade é um dos diferenciais da Acuracan pois reflete a peculiaridade do tratamento canábico, respeitando que cada organismo é único e responde de forma diferente aos remédios.

5. Desafios Regulatórios e Caminhos para Melhoria

5.1 Insegurança Jurídica

Sem marco claro para associações, muitas atuam em zona cinzenta, dependendo de decisões judiciais para operar. A RDC 327/2019 (que abriu a Consulta Pública nº 1.316, de 27/03/2025) ainda impõe barreiras às entidades sem fins lucrativos, dificultando credenciamento junto à Anvisa.

5.2 Judicialização vs. Programa Estruturado

Enquanto o SUS gasta milhões em ações individuais, um programa colaborativo poderia integrar associações via convênios ou licitações diretas, ampliando acesso e reduzindo custos, nesta perspectiva vale citar o Projeto de Lei n° 89, de 2023 do Senador Paulo Paim (PT/RS) que Institui a Política Nacional de Fornecimento Gratuito de Medicamentos Formulados de Derivado Vegetal à Base de Canabidiol, em associação com outras substâncias canabinoides, incluindo o tetrahidrocanabinol, nas unidades de saúde públicas e privadas conveniadas ao Sistema Único de Saúde – SUS.

6. Considerações Finais

Os fitoterápicos produzidos por associações de pacientes são, de fato, laboratoriais, controlados e seguros, contrariando a noção de improviso. A integração de equipes multidisciplinares, ambientes setorizados, equipamentos adequados e rotinas de validação reafirma que essas entidades entregam remédios de altíssima qualidade, muitas vezes superiores em custo‑benefício e eficácia aos isolados industriais.

O breve panorama da Acuracan ilustra práticas comuns: matrizes estabilizadas, laudos duplos, protocolos de filtragem, testes microbiológicos e banco de dados para padronização/personalização. Mas há todo um ecossistema de associações país afora empenhado em evoluir continuamente. Para que o Brasil avance de um modelo de judicialização reativo para um programa estruturado, é imprescindível:

  • Reconhecer o valor técnico das associações
  • Criar marco regulatório que as inclua no SUS
  • Fomentar pesquisa e padronização em rede

Assim, estaremos não apenas desmistificando o produto fitoterápico como algo “artesanal”, mas concretizando um direito constitucional: o acesso equitativo a terapêuticas canábicas com qualidade, segurança e responsabilidade.

7. Mais informações e Contato

Caso ainda tenha dúvidas sobre terapêutica canábica, a Acuracan disponibiliza um canal de atendimento dedicado para orientações e indicação de médicos parceiros. 

ACURACAN ASSOCIAÇÃO TERAPÊUTICA
48.947.452/0001-01
Av. Azenha 1678/503, Bairro Azenha
Porto Alegre – RS
CEP: 90160-007
Farmacêutica Responsável: Karol Dias
Setor de atendimento (WhatsApp): (51) 99593-6733


8. Referências

  1. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). RDC 327/2019 – Regulamenta produtos de cannabis.
  2. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). RDC 660/2022 – Atualiza normas de importação de fitoterápicos.
  3. Di Marzo, V., et al. “Endocannabinoid System and Its Therapeutic Implications.” Nature Reviews Drug Discovery, vol. 19, 2020, pp. 295–313.
  4. Izzo, A. A., et al. “Non‑psychotropic plant cannabinoids: new therapeutic opportunities from an ancient herb.” Trends in Pharmacological Sciences, vol. 29, no. 10, 2008, pp. 515–523.
  5. Relatório Instituto Cabem Mais Vidas (2020). Judicialização da saúde no Brasil.
  6. aya Mind (2023). Anuário do Mercado de Cannabis Medicinal no Brasil.
  7. Farmacopeia Brasileira 7ª edição: volume I – versão RDC nº 940/2024
  8. Resolução RDC Nº 658, DE 30 DE Março DE 2022

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